Araripe CE, 20 de fevereiro de 2026
Saudações literomusicais, Belchior
O amigo Nonato Nogueira tem
falado muito sobre você. Ele é um grande admirador da sua obra e conhecer da
sua história. Ele sempre tem uma carta na manga para apresentar projetos sobre
você. Desta vez, incentivou-me a escrever esta carta.
Belchior, vou falar um pouco
sobre o dia em que o conheci em 2003.
Eu estava cursando a 6ª série
(atual 7º ano) do Ensino Fundamental, na Escola Francisco de Assis Leite em
Salitre (CE), a cidade capital da mandioca. Era aula de língua portuguesa
quando a professora, minha favorita, nos apresentou você. Ela disse: “hoje nós
vamos conhecer a obra de um dos melhores cantores da música brasileira. Seu
nome é Belchior. Alguém conhece?”
Naquele momento toda a turma
ficou em silêncio, pois estávamos acostumados a escutar músicas das
tradicionais bandas de forró, brega, sertanejo; mas, a MPB “parecia” ser
novidade. Escutamos a canção “Como os nossos
pais”: debatemos a temática, fizemos a leitura e compreensão textual da
letra, refletimos sobre a mensagem transmitida e comparamos com as músicas que
costumávamos escutar no cotidiano. Descobrimos que várias canções que tocava na
rádio da cidade era de sua lavra; porém, nós não o conhecíamos. Canções como “Apenas um rapaz latino americano”, “Alucinação”, “Fotografia 3x4”, “A palo seco”,
“Sujeito de sorte” e outras tocadas frequentemente
nas manhãs de sábado.
Durante aquela aula, a
professora nos contou um pouco da sua história. Ficamos sabendo que se tratava
de um músico, cantor, compositor, poeta e artista plástico cearense, da cidade
de Sobral. Conhecido no cenário nacional, que costumava apresentar reflexões
sociais e filosóficas nas suas canções, interpretadas por vários artistas da
MPB.
Aquela aula despertou minha
curiosidade sobre você e eu comecei a pesquisar e escutar suas canções.
Descobri que assim como você, eu também sou “apenas um rapaz latino americano”, que na minha infância tinha “medo de avião” e neste mundo rotineiro
continuo vivendo “como os nossos pais”.
Às vezes, sinto “alucinação” e viajo
por outros mundos com minha “velha roupa
colorida”. Há quinze anos trabalho na educação, e algumas vezes reflito “a palo seco” sobre por onde andei
gritando em português e inglês. Há dias que me sinto um “sujeito de sorte”, porque quase morri em anos passados, mas
compreendo que vivemos cada hora “antes
do fim”. Já presenciei situações de preconceito descritas em “Fotografia 3x4”, não proferido pelos
guardas, mas por civis que permeiam nossa sociedade hipócrita e continuam
vivendo “como o diabo gosta”.
Sei que não devo cantar
vitória muito cedo, nem “levar flores”
para cova do inimigo. Mas continuo falando das coisas que aprendi nos discos e
tudo que aconteceu comigo. Compreendo que teve que partir, mesmo sabendo que
iríamos sentir saudades, e que a cultura musical sentiria imensa falta de novas
composições do rapaz latino americano. Além disso, aos 50 anos de lançamento,
com mais de 500 mil cópias vendidas, o disco “Alucinação” continua sucesso; pois, a solidão, o amor, os direitos
humanos, a política e as condições humanas abordados em suas reflexões musicais
são atemporais.
Parabéns pelos 50 anos da sua obra-prima e 80 anos de imortalidade na MPB!
Atenciosamente,
José Roberto Morais
MORAIS, José Roberto. Coisas que aprendi nos discos. In Cartas para Belchior: experiência com coisas reais / Nonato Nogueira (organizador); Josely Teixeira Carlos (prefácio). 1ª ed. Fortaleza, CE: Ed. dos Autores, 2026. (p. 33-34)
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