quinta-feira, 21 de maio de 2026

COISAS QUE APRENDI NOS DISCOS

 

Araripe CE, 20 de fevereiro de 2026

Saudações literomusicais, Belchior

O amigo Nonato Nogueira tem falado muito sobre você. Ele é um grande admirador da sua obra e conhecer da sua história. Ele sempre tem uma carta na manga para apresentar projetos sobre você. Desta vez, incentivou-me a escrever esta carta.

Belchior, vou falar um pouco sobre o dia em que o conheci em 2003.

Eu estava cursando a 6ª série (atual 7º ano) do Ensino Fundamental, na Escola Francisco de Assis Leite em Salitre (CE), a cidade capital da mandioca. Era aula de língua portuguesa quando a professora, minha favorita, nos apresentou você. Ela disse: “hoje nós vamos conhecer a obra de um dos melhores cantores da música brasileira. Seu nome é Belchior. Alguém conhece?”

Naquele momento toda a turma ficou em silêncio, pois estávamos acostumados a escutar músicas das tradicionais bandas de forró, brega, sertanejo; mas, a MPB “parecia” ser novidade. Escutamos a canção “Como os nossos pais”: debatemos a temática, fizemos a leitura e compreensão textual da letra, refletimos sobre a mensagem transmitida e comparamos com as músicas que costumávamos escutar no cotidiano. Descobrimos que várias canções que tocava na rádio da cidade era de sua lavra; porém, nós não o conhecíamos. Canções como “Apenas um rapaz latino americano”, “Alucinação”, “Fotografia 3x4”, “A palo seco”, “Sujeito de sorte” e outras tocadas frequentemente nas manhãs de sábado.

Durante aquela aula, a professora nos contou um pouco da sua história. Ficamos sabendo que se tratava de um músico, cantor, compositor, poeta e artista plástico cearense, da cidade de Sobral. Conhecido no cenário nacional, que costumava apresentar reflexões sociais e filosóficas nas suas canções, interpretadas por vários artistas da MPB.

Aquela aula despertou minha curiosidade sobre você e eu comecei a pesquisar e escutar suas canções. Descobri que assim como você, eu também sou “apenas um rapaz latino americano”, que na minha infância tinha “medo de avião” e neste mundo rotineiro continuo vivendo “como os nossos pais”. Às vezes, sinto “alucinação” e viajo por outros mundos com minha “velha roupa colorida”. Há quinze anos trabalho na educação, e algumas vezes reflito “a palo seco” sobre por onde andei gritando em português e inglês. Há dias que me sinto um “sujeito de sorte”, porque quase morri em anos passados, mas compreendo que vivemos cada hora “antes do fim”. Já presenciei situações de preconceito descritas em “Fotografia 3x4”, não proferido pelos guardas, mas por civis que permeiam nossa sociedade hipócrita e continuam vivendo “como o diabo gosta”.

Sei que não devo cantar vitória muito cedo, nem “levar flores” para cova do inimigo. Mas continuo falando das coisas que aprendi nos discos e tudo que aconteceu comigo. Compreendo que teve que partir, mesmo sabendo que iríamos sentir saudades, e que a cultura musical sentiria imensa falta de novas composições do rapaz latino americano. Além disso, aos 50 anos de lançamento, com mais de 500 mil cópias vendidas, o disco “Alucinação” continua sucesso; pois, a solidão, o amor, os direitos humanos, a política e as condições humanas abordados em suas reflexões musicais são atemporais.

Parabéns pelos 50 anos da sua obra-prima e 80 anos de imortalidade na MPB!

Atenciosamente,

José Roberto Morais

MORAIS, José Roberto. Coisas que aprendi nos discos. In Cartas para Belchior: experiência com coisas reais / Nonato Nogueira (organizador); Josely Teixeira Carlos (prefácio). 1ª ed. Fortaleza, CE: Ed. dos Autores, 2026. (p. 33-34)


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