sábado, 12 de setembro de 2026

LAMENTO DE UMA ÁRVORE

 21 DE SETEMBRO: DIA DA ÁRVORE


Eu nasci de uma semente

Cresci com sombra frondosa

Vivia sempre contente

Minha fruta era gostosa.

Porém, o tempo passou

Alguém veio e desmatou

Toda árvore aqui perto;

Eu fiquei sem proteção

Perdi minha nutrição

Neste solo de deserto.

 

Muitas crianças brincavam

Balançando nos meus galhos

De manhã alimentavam

As raízes com orvalhos.

Hoje vivo descontente

Sem amigo ou parente

Pois ninguém cuida de mim;

Nem sequer há mais sereno

Houve fogo no terreno

Chego perto do meu fim.

 

Queimaram minhas irmãs

Para fazer um roçado

Agora pelas manhãs

Sinto um calor arretado.

Antes ouvia seresta

As aves faziam festa

Pois eu tinha alimento;

Hoje sinto solidão

Sem inverno, só verão

Aumenta meu sofrimento.

 

Antes sombreava o chão

Convidava os animais

Que faziam diversão,

Algazarra e festivais.

Fui um rancho hospedeiro

Ouvi prosa de vaqueiro

Em busca de barbatão;

Na sombra que descansavam

Sentados logo aboiavam

E faziam a refeição.

 

Fui palco dos periquitos

Gola, sanhaçu e rolinha

Fui descanso de cabritos

Até chegar à tardinha.

Havia um rio correndo

Pelas pedras ia descendo

Com as águas cristalinas;

Depois da devastação

Eu vejo rachando o chão

Dessas terras nordestinas.

 

Procurando não encontro

Água para me manter

Estou só marcando o ponto

E não posso florescer.

Escuto a motosserra

Derrubando pela terra

As últimas sobreviventes;

Estão contados meus dias

Vivo só de nostalgias

Sinto chamas permanentes.

 

Já arranharam meu tronco

E desistiram em seguida

Mas ainda escuto o ronco

Da maldade desmedida.

Vão retirando a madeira

De cada irmã hospedeira

Sinto cada sofrimento;

Distante do Soberano

Aquele que diz “ser humano”

Nem escuta meu lamento.


José Roberto Morais

Sítio Tanquinho, Araripe CE