domingo, 1 de setembro de 2024

JUVENAL GALENO: POETA FOLCLORISTA

 LITERATURA CEARENSE

 

Fortaleza foi o berço

Do poeta Juvenal

Rua Formosa, começo

Bairro residencial.

O poeta popular

Foi também familiar

De Capistrano de Abreu;

Rodolfo Téofilo, primos

Escritor que aplaudimos

Cada obra que escreveu.

 

Para o Sítio Boa Vista

Um recanto aconchegante

Mudou-se tão otimista

Era pequeno estudante.

Em Pacatuba, estudou

No Aracati, frequentou

Já com noções de latim;

Fez seu primeiro jornal

Literário e cultural

“Sempre Viva” foi assim.

 

Do Ceará ao Brasil

“Mocidade Cearense”

Da imprensa estudantil

Pra Marmota Fluminense.

Lá no Rio de Janeiro

Pra seguir o seu roteiro

Naquela linda cidade;

Com Machado de Assis,

Macêdo e Marinho, quis

Fazer laços de amizade.

 

Ceará no Romantismo

Como marco inaugural

Teve o regionalismo

Do poeta Juvenal.

Os seus “Prelúdios Poéticos”

Com versos sempre frenéticos

Por ser magno literário;

E fez peça teatral

Padaria Espiritual

Padeiro-mor honorário.

 

“Lendas e Canções Populares”

Obra regionalista

Desbravando outros mares

Figura abolicionista.

Com “A Noite na Senzala”

“O Escravo” também fala

Do suicídio ocorrido;

Na encenação transfere

Disse “Quem com ferro fere,

Com ferro será ferido”.

 

No fantástico escreveu

O poema “A Machadada”,

Uma prisão que ocorreu

No percurso da jornada.

Um poeta folclorista

Pois foi um grande contista

Com as “Cenas Populares”;

Genuína inspiração

Galeno é tradição

De produções singulares.


MORAIS, José Roberto. Juvenal Galeno: poeta folclorista. In Revista Sarau. Vol 4, Nº 10, setembro/outubro 2024 (p.40-41) ISSN 2965.6192  


CONFABULANDO COM JOÃO CABRAL II

LITERATURA BRASILEIRA 


II – VIDA NORDESTINA

O meu nome é Severino

Vivendo meu dia a dia

Sou autêntico nordestino

Minha mãe, Dona Maria.

Minha querida esposa

É chamada de Luzia

Ela é filha de Antônia

E do velho Zacarias.

Neste torrão tão quente

Vou vivendo com alegria

No roçado agricultor

Trabalho sem companhia.

Acordo logo cedinho

O sol brilhante irradia

Já plantei milho e feijão

Jerimum e melancia.

À tarde, monto o alazão

Vou cuidar da vacaria

Vestindo o velho gibão

O ocaso se inicia.

Ao curral trago as vacas

Para poder ordenhar

Minha pequena Sofia

Com leite alimentar.

À noite, eu me hospedo

Nesta simples moradia

Depois do jantar, vou dormir

Para acordar noutro dia.


MORAIS, José Roberto. Confabulando com João Cabral. In Revista Sarau. Vol 4, Nº 10, setembro/outubro 2024 (p.40) ISSN 2965.6192  


CONFABULANDO COM JOÃO CABRAL I

LITERATURA BRASILEIRA 


I - TECENDO A VIDA

Um homem sozinho não vive neste mundo:
ele precisará sempre de outros homens.

de um professor para orientar sua busca pelo conhecimento,
de um médico para cuidar da sua saúde,
de um advogado para defender sua causa,
de um agricultor para cultivar seu alimento,

de um pedreiro para construir sua casa,

de um motorista para conduzir seu veículo,
de um mecânico para consertar seu transporte,
de um policial para garantir sua segurança,
de um poeta para recitar o poema da sua vida.

E se organizando neste planeta,
ajudando e recebendo ajuda,
se comunicando com seu meio,
ele vai tecendo sua vida.
Amanhã, quando a indesejada das gentes chegar

ele partirá e será luz.


MORAIS, José Roberto. Confabulando com João Cabral. In Revista Sarau. Vol 4, Nº 10, setembro/outubro 2024 (p.40) ISSN 2965.6192  

terça-feira, 30 de julho de 2024

BANDEIRA, MÁRIO E OS SAPOS

 LITERATURA BRASILEIRA


Em 1921, Manuel Bandeira morava no Rio de Janeiro. Conheceu Mário de Andrade e através desse, colaborou com o poema Bonheur Lyrique” para a revista modernista Klaxon. Mário o informou sobre os pretensos interesses em realizar um grande evento modernista em São Paulo no ano vindouro e desejava a contribuição de Manuel no momento de apresentações artísticas inovadoras que duraria uma semana e aconteceria no Teatro Municipal de São Paulo.

- Prazer em conhecê-lo, eu sou Mário.

- Olá, Mário. Eu sou Manuel.

- Eu estava à sua procura Manuel, pois estou planejando, com alguns colegas artistas, um evento a ser realizado no próximo ano em São Paulo. E nós desejaríamos contar com sua participação.

- Esse evento tem temática específica? Qual o seu propósito?

- A nossa proposta é explorar a brasilidade e valorizar o território nacional como berço de inspiração cultural através da poesia, música, dança, pintura e outras expressões artísticas. Antes, quero que você escreva algo para a revista Klaxon.

- Claro! Eu acho que tenho um poema aqui que se encaixa muito bem nesse periódico.

Após a visita de Mário, Bandeira, que antes recebeu influência parnasiana e simbolista, pensava numa produção que viesse ao encontro das ideias do evento, estabelecendo uma nova estética que rompesse com os padrões antigos e abrisse caminho para a arte moderna no país.

Pensando assim, ele decidiu que romperia com os vestígios parnasianos presentes na sociedade e decidiu fazer um poema deboche agressivo sobre a arte de rimas raras e métricas nos poemas ... concebeu-se “os sapos”. 

(...)O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: - "Meu cancioneiro
É bem martelado.

Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos. (...)

Ronald de Carvalho encarregou-se da declamação do poema, já que Bandeira não pode viajar a São Paulo para participar do Movimento Modernista, cuja participação foi sempre à distância.


segunda-feira, 15 de julho de 2024

A CASA DA MEMÓRIA: UMA CARONA NO TEMPO

 LITERATURA CEARENSE CONTEMPORÂNEA


Durante as férias escolares em julho, estive procurando alguns livros para momentos de entretenimento e busca pelo conhecimento. Nessa procura literária, me deparei com uma obra da literatura caririense, especificamente, salitrense. Trata-se d“A casa da memória”* do amigo, poeta e escritor Manoel Neto, da “terra abençoada, por Deus amada, querida, fulgurante”, a querida Salitre, onde vivi, diariamente, sete anos de vida escolar.

Nessa obra, composta por crônicas, o escritor de óptica aguçada, observadora e reflexiva sobre os fatos cotidianos, apresenta o dia a dia das crianças que frequentam às instituições escolares, outros fatos e ideias, além de eventos da vida dos moradores da pacata cidade do interior cearense e a passagem do tempo.

Revivi leituras já realizadas outrora no blog “De letra em letra” que foram organizadas nessa produção. Passeei com as crianças a caminho da escola, reencontrei os garotos G e Josivan, percebi que as crianças são a salvação da escola e me deparei com gente que volta à escola após o destino traçar outras trilhas na vida. Concordo que a falta de gosto das crianças pela leitura é culpa dos adultos e que não saber ler pode ser a coisa mais triste do mundo. Além de refletir sobre quem paga a falta de amor, de comida, de conselho, de sensibilidade, a violência contra os pequenos.

Na segunda parte, reencontrei Rita doida, refleti sobre os tempos em família, as crenças nossas de cada dia, os heróis anônimos, a injustiça bem perto de nós, o menino sem nome, quem são os estudantes, o cachorro enterrado no terreiro da casa e outros fatos e ideias.

Ao chegar a terceira parte, adentrei novamente a cidade de Salitre, onde passei as tardes no seio escolar durante sete anos que frequentei a Escola Francisco de Assis Leite e a Escola José Waldemar de Alcântara e Silva. Revi o pé da serra, as cacimbas de Dona Nega, as melancias verdes, as mulheres e aviamentos, a Rua São Pedro de antigamente. Recordei o aniversário de 30 anos da “linda cidade ao pé da serra do Araripe, exemplo de amor e humildade”, cidade abençoada de um “povo hospitaleiro” e reencontrei Maria da terra do boi.

Concluindo essa viagem, na última parte, de carona com o tempo, mergulhei nos baús da humanidade, a idade de ouro da vida, vi os meninos jogando bola na rua onde o poeta morou e finalmente retornei à casa da memória onde sua avó morou na Rua São Pedro, no centro da cidade.

Reler “A casa da memória”, obra instigante à reflexão através de narrativas do cotidiano, numa linguagem simples, me fez devanear pela minha infância e revisitar a casinha da minha avó através das recordações.  

  

*SOUSA, Manoel Neto de. A casa da memória: crônicas. 1ª edição. Editora D7. Campinas - SP, 2019.


quarta-feira, 3 de julho de 2024

RACHEL - UMA NOITE NA FAZENDA

LITERATURA CEARENSE 


Era mês de julho de 1929. À noite, um candeeiro ilumina o quartinho dos fundos no casarão da Fazenda Não Me Deixes. Rachel de Queiroz, a jovem professora, está em férias na casa dos pais. Concentrada, rabiscando papéis distante dos aposentos para não atrapalhar o sono de Dona Clotilde e “Seu” Daniel. 

Dois anos antes, usando o pseudônimo Rita de Queluz, ela havia começado seus trabalhos de produção literária ao escrever uma carta para o jornal “O Ceará”, ironizando o concurso de Rainha dos Estudantes, promovido pelo periódico. Sua carta fez muito sucesso. Convidada a ser colaboradora do jornal, a professora diplomada aos quinze anos em 1925, começou organizar a página literária na qual publicou o folhetim “História de um Nome”.

Dona Clotilde levanta-se na madrugada e percebe que a luz do candeeiro ainda ilumina o quartinho dos fundos, espaço favorito da filha quando criança. Vai até lá e encontra Rachel cochilando, sentada na cadeira e a cabeça sobre um caderno. Ela acorda a moça que despertada inesperadamente, questiona:

- Mamãe! Que horas são?

- Já são duas horas da madrugada, filha. Por que dormiu aqui?

- Estava escrevendo e acabei pegando no sono. Volte a dormir, mamãe. Eu vou já também. Mas preciso concluir um capítulo do “quase” romance de Conceição e Vicente.

Dona Clotilde sai e deixa a filha que logo volta a escrever.

Esse texto que a professora escreve apresenta um quadro social dramático e realista da luta do povo cearense contra a devastadora seca que iniciou em 1915 e trouxe muita fome e miséria à população do interior do estado de Iracema, a virgem dos lábios de mel. Vindo a ser intitulado “O Quinze”, narra o êxodo de trabalhadores e fazendeiros das fazendas em Logradouros e Quixadá que partem em busca de sobrevivência na capital cearense.

Ao amanhecer o dia, com o cavalo selado, Rachel monta o equino e parte em passeio pela Fazenda Não Me Deixes. Observa o gado pastando, escuta a serenata matinal dos passarinhos, e sonha em um dia vindouro, quem sabe, ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras.


MORAIS, José Roberto. Rachel de Queiroz. In Revista Sarau. Vol 4, Nº 9, julho/agosto 2024 (p.13) ISSN 2965.6192     

RACHEL DE QUEIROZ E SUA OBRA PRIMA

LITERATURA CEARENSE  


Rachel de Queiroz nasceu

No estado do Ceará

Três anos ela viveu

Na cidade Quixadá

Mudou-se pra capital

E publicou no jornal

Ironizando um concurso

Tornou-se uma escritora

Uma ótima professora

Foi seguindo seu percurso.


Com “O Quinze” se tornou

Escritora romancista

Muitas obras, publicou

Foi uma grande cronista

Observava o dia a dia

Com o toque de magia

Expondo sua emoção

E teve obra adaptada

Para ser representada

Até na televisão.

 

Deixou uma obra imensa

Nesse mundo literário

Escreveu de forma intensa

Seguiu seu itinerário

Sobre a seca no sertão

Homenagem a Lampião

Escreveu conto infantil

Contando causos e fatos

Nos seus livros fez retratos

Do interior do Brasil.

 

No romance social

A Conceição e o Vicente

“Quase” formam um casal

Nas terras de sua gente

Porém, a seca tão brava

Sua gente fez escrava

Tornando uma imigrante

Saindo do interior

Partiu naquele vapor

Seu amor ficou distante.

 

Na capital, professora

Cumpria sua missão

A moça batalhadora

Que viera do sertão

No período mais crítico

Durante um ano atípico

Que a seca devastava

Ela viu na capital

Triste quadro social

De gente que ali chegava.

 

Campos de concentração

Reunia os imigrantes

Entre eles, a Conceição

Ajudava os retirantes

Pensava no interior

Esfriou aquele amor

As lembranças de Vicente

Quando o inverno voltou

Somente a vó retornou

Às terras de sua gente.


MORAIS, José Roberto. Rachel de Queiroz. In Revista Sarau. Vol 4, Nº 9, julho/agosto 2024. (p. 14) ISSN 2965.6192